Zedillo oferece continusmo frente  crise mexicana 

JORGE CASTAEDA 

Traduo de Clara Allain

Especial para a Folha 

Existem muitas maneiras de enxergar os ltimos acontecimentos no Mxico: fim de um regime ao qual a populao j estava acostumada, renovao sexenal, continuidade reformadora e modernizante, perpetuao autoritria.

Da anlise que cada um escolher decorrero as concluses prticas, polticas e pessoais s quais ir chegar. Poderamos aventar duas vises, por enquanto: uma, ctica e alarmada, que detecta na conjuntura mexicana uma crise profunda, sem soluo  vista.

Outra que, sem negar os problemas, considera que sua soluo  relativamente simples e consiste em uma tranquilizante continuidade de fundo, ajustada por mudanas isoladas: no h nada que no possa ser consertado com o tempo.

Essa segunda viso , ao que tudo indica, a que inspirou o presidente Ernesto Zedillo a formar sua equipe de colaboradores e a expor, em seu discurso de posse, no dia 1 de dezembro, seu projeto de governo para os prximos anos.

Prevaleceu um enfoque ortodoxo e continusta. Nem o gabinete, nem a mensagem foram elaborados com um sentido de ruptura com o passado: em nenhum dos dois casos pretendeu-se dar a impresso de que se parte de um senso de crise aguda.

Mais alm das individualidades algumas das quais se sobressaem, enquanto outras so lamentveis, o gabinete de Zedillo se distingue por um sinal crucial de mudanas e um carter continusta e conservador que destoa dele.

O elemento de mudanas , evidentemente, a incluso de um representante do principal partido de oposio num cargo-chave a Procuradoria Geral da Justia, abrindo assim caminho para um eventual governo de coalizo, algum dia. Por mais que se diga que a indicao de Antonio Lozano no foi partidria, e sim individual, o fato  que ele faz parte do novo governo por sua militncia no PAN e no por alguma capacidade individual socialmente reconhecida, embora esta possa existir.

S podemos elogiar essa nomeao e as perspectivas que ela abre para o Mxico no mdio prazo: o incio do fim do monoplio do poder poltico por um partido. Uma andorinha no faz vero e, parafraseando Sartre,  preciso mais de um panista (poltico do PAN) para corrigir dcadas de abuso, corrupo e violncia.

O restante do gabinete, infelizmente, no reflete a mesma audcia. Presidiram a sua formao os critrios que classicamente ditam a escolha das equipes governamentais no Mxico: uma dose de lealdade  toda prova; uma pitada de amizade distante, de preferncia universitria ou dos primeiros escales do funcionalismo; vrias colheradas de representao do velho governo, para que o presidente anterior no se sinta ameaado nem rechaado; e alguns gramas de proximidade a foras polticas excludas, mas ainda toleradas.

Em todo caso, no  um  gabinete de guerra, isto , um governo de personalidades excepcionais. Vem da a deduo de que, j que Ernesto Zedillo poderia recorrer a esta alternativa e a descartou, ele simplesmente no a considerou imprescindvel. Ele no precisa de uma equipe de emergncia pela simples razo de que tal emergncia no existe.

Menos triunfalismo 

A mesma convico parece permear o discurso inaugural do novo presidente. Ele incluiu vrios trechos felizes, em particular sobre a corrupo e as fortunas que devem ser feitas fora de seu governo, no dentro dele; sobre o presidencialismo, o trato com a oposio e a necessidade de consumar a democratizao; e, sobretudo, no tocante  reforma do Judicirio.

Inclusive sua nfase no combate  pobreza, apesar de ocupar lugar de destaque na liturgia das posses presidenciais mexicanas, conferiu um toque menos triunfalista do que aquele ao qual Carlos Salinas vinha acostumando os mexicanos. De modo geral, o texto de Zedillo reflete uma avaliao mais realista e at certo ponto nova da situao.

Mas no foi uma grande pea oratria que tenha partido de uma anlise dilacerante da realidade mexicana. O discurso de Zedillo indica problemas e aceita carncias; de nenhuma maneira reflete um reconhecimento da deteriorao do sistema poltico e da desesperana de boa parte da sociedade.

Seu programa se baseia em um diagnstico crtico, mas no terminal, do regime poltico sob o qual o pas vive desde o final dos anos 20. Nem o levante de Chiapas, nem os assassinatos de Luis Donaldo Colosio e Jos Francisco Ruiz Massieu, nem o ceticismo que as eleies continuaram gerando, nem as denncias e as lutas internas do PRI, nem mesmo, em suma, a armadilha legada por Carlos Salinas desembocaram numa viso de ruptura e transformao.

O programa de Zedillo, assim como seu gabinete e os discursos de posse de todos os seus predecessores, partem do sutil e tradicional jogo de sempre entre continuidade e mudanas em que o sistema mexicano se fundamenta: muda tudo o que  secundrio, para que permanea o essencial.

Provavelmente foi assim porque Zedillo e seus colaboradores no consideram que a situao exija mais. E eles podem ter razo:  uma leitura vlida e verossmil dos resultados eleitorais de agosto de 1994, do triunfo esmagador e surpreendente conquistado pelo PRI nas urnas e, possivelmente, do estado de nimo da populao.

 muito possvel que, depois dos sustos do ano, os mexicanos anseiem por tranquilidade, segurana e o retorno  normalidade morna dos tempos passados. Se for assim, o subestimar deliberado da gravidade da crise vai render politicamente: os mexicanos agradecero ao governo por ter desfeito o pnico que poderia ter se espalhado ao longo de 1994.

Custo da vitria 

A outra leitura das eleies e do momento que vive o pas pode resumir-se a uma metfora histrica. Em 1918, a Frana, ao cabo de quatro anos de guerra, 1 milho de mortos, o holocausto de Verdun e a quase queda de Paris na batalha da Marne, se imps  mquina de guerra alem. O esforo nacional, popular e das elites francesas foi extraordinrio.

Mas a "sobremesa" revelou que o custo do triunfo foi exorbitante: a Terceira Repblica ficou exaurida. As consequncia seriam medidas nos anos 30, quando a sociedade francesa revelou-se incapaz de levar a bom termo as reformas da Frente Popular, em 1936, e em 1940, quando a classe poltica, empresarial, militar e intelectual francesa capitulou desavergonhadamente diante dos nazistas.

Ameaado de morte em vrias ocasies este ano, o sistema poltico mexicano conseguiu sobreviver mediante um supremo esforo de unidade e concentrao Depois da insurreio de Chiapas, dos assassinatos, das divises, dos sequestros e das incertezas do primeiro semestre, e das previses e fraquezas das semanas que antecederam as eleies, o aparelho, o PRI e o governo souberam se unificar e sair garbosos de um transe que at o final se supunha ser insupervel.

Mas a consequncia foi, como na Frana, excessiva: o sistema ficou exaurido. Comearam os confrontos, alguns a bala, outros  fora de recriminaes. A inrcia se imps e a terrvel crise que o pas vive oprimiu pesadamente o sistema poltico mexicano e o PRI. Aps sua vitria veio o colapso interno: esgotaram-se as foras que lhe davam vida.

Se consideramos vlida esta hiptese, a serenidade de Zedillo, de seu discurso e de sua equipe no emanariam de uma anlise fria da realidade mexicana. Viria da impossibilidade de agir de outra forma e do esgotamento.

Neste caso, a inteno do novo governo de gerar uma sensao de serenidade ser frustrada, em pouco tempo, pelos efeitos da crise: novas surpresas e golpes abalaro, daqui a muito pouco tempo, a calmaria que hoje impera.

O fato de ter feito da necessidade uma virtude no beneficiar muito a Zedillo: teria sido prefervel alarmar os mexicanos a tranquiliz-los. Os prximos dias e meses diro qual foi a viso acertada: a da crise  light ou a de  la France ternelle, prostrada por seus mortos em Verdun.

JORGE CASTAEDA, 39, socilogo e economista mexicano,  professor visitante da Universidade de Princeton (EUA) e catedrtico da Universidade Autnoma do Mxico (Unam).
